Deu tudo certo. Saiu exatamente como o planejado. Quase nada fora do script. Talvez um número de votos menor que o esperado, talvez votos em excesso para um rebelde, mas, no fim das contas, as eleições que definiram os presidentes da Câmara e do Senado ontem foram de acordo com o que o governo desejava. Aliás, não só o governo, e talvez seja esse o grande problema.
Na verdade, o que aconteceu ontem não é mais do que um retrato de como vem sendo tratada a relação entre os poderes da república desde a redemocratização do país, em 1985. É claro que, num cenário político/econômico de grande instabilidade, como foram os períodos de José Sarney e Fernando Collor na presidência, existe mais espaço para a "rebeldia" dos parlamentares insatisfeitos e a oposição tem mais bala na agulha para se afirmar como oposição. Mas, quando o país encontra o rumo da estabilidade, como ocorreu a partir da segunda metade do governo de Itamar Franco, ser contra se torna, por assim dizer, criticar o que está dando certo. E obviamente ninguém quer o desgaste de fazer papel de chato diante da opinião pública. Talvez por isso, os governos de Fernando Henrique Cardoso e Lula experimentaram pouca oposição, ou ainda, uma oposição desqualificada, desprovida de argumentos e cuja fala soava no vazio.
No governo FHC, ainda tínhamos um PT que, mesmo de maneira atabalhoada, assumia o papel de criticar o governo. Mas o PT ainda não havia experimentado as maravilhas do poder nesse período, de maneira que era mais fácil afirmar que, se estivesse no lugar dos tucanos, faria diferente. O PT chegou ao poder e, de duas uma: ou achou que os tucanos estavam certos e por isso não mexeu na essência da política de FHC, ou, mesmo discordando, não tinha de fato uma proposta de país melhor do que a dos antecessores.
Para o PSDB, a situação ficou ainda pior depois da eleição de Lula. Como fazer oposição se os adversários mantinham aquilo que havia sido implantado no governo tucano? Isso tornou o discurso peessedebista sem credibilidade. Muito possivelmente, isso explica o fracasso tucano nas duas últimas campanhas presidenciais.
Toda essa história é para ilustrar o quadro que vivemos hoje na política brasileira. Certa vez, em entrevista a um jornal de Belo Horizonte, o então prefeito da capital mineira e hoje ministro do desenvolvimento, indústria e comércio, Fernando Pimentel, chegou a dizer que, quem quer que assumisse o governo, a estabilidade conquistada a duras penas não seria posta em xeque. O que ele quis dizer, e com razão, é que não há mais espaço para soluções milagrosas no Brasil. Quando o país está caminhando de maneira tranquila, sem sobressaltos e com estabilidade política e econômica, fecham-se as portas para agendas messiânicas. Isso é bom? Sim, por uma parte. É sinal de que o país está prosperando e isso é reconhecido pelas principais correntes políticas. Por outro lado, a oposição perde boa parte do combustível que dá vida ao seu discurso e acaba sedendo a muitas das vontades do governo.
É isso que aconteceu ontem no Congresso. A eleição de Sarney e Marco Maia para presidir o Senado e a Câmara foi fruto de um grande acordo entre os partidos da base aliada e da oposição. O pior é que esse acordo não leva em conta apenas a estabilidade dos trabalhos no parlamento, mas tem uma contrapartida do governo, que é a generosa distribuição de cargos entre os partidos que o apóiam. Que a política brasileira é fisiologista e que os cargos são a razão do apoio de muitos partidos, não é novidade para ninguém. O mais grave é que, se a oposição aceita participar do acordo em nome da chamada construção do consenso, é sinal de que ela também compactua com os métodos do governo. E agora José? Que base tem para criticar o governo uma oposição que compactua com as manobras pouco éticas desse mesmo governo?
O fato é que o Congresso Nacional foi palco ontem da demonstração de que, atendidos os interesses de cada grupo político, governo e oposição podem caminhar de mãos dadas, numa espécie de pacto de não agressão, como aquele assinato por Hitler e Stalin antes da II Guerra Mundial. No fim das contas, governo e oposição fizeram um mexidão de camaradas, o que provou que as instituições políticas do país vão mal. Ao fim e ao cabo, PT e PSDB nada mais são do que as duas faces de uma moeda podre: o parlamento brasileiro.
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Presente para os cegos: descrição completa do vídeo do Natal Digital
Um dos vídeos mais em voga nos últimos dias no Youtube é o que recria o episódio do nascimento de Jesus, contextualizando o fato para a era das redes sociais, sites de relacionamento, sistema de compras online e outras ferramentas dos nossos dias. Ocorre que, para pessoas cegas, como é o meu caso, o vídeo não passa de uma porção de barulhos característicos de programas de computador, muita digitação e a trilha musical por conta da versão de Jingle Bells para harpa paraguaia, versão que, diga-se, aparece em oito de cada dez comerciais natalinos.
Quando cliquei no link do vídeo pela primeira vez, reclamei, pelo Twitter, da falta de uma audiodescrição, afinal, não havia qualquer narração para que pudéssemos saber o que se passava na historinha. No dia seguinte, recebi um e-mail do meu amigo Jério Eber, parceiro em algumas canções e amigo há quase duas décadas. Lá estava a descrição completa do vídeo, inclusive com as legendas. O trabalho ficou tão bom e tão minucioso que, na minha opinião, seria injusto privar outros cegos de desfrutá-lo.
Por isso, seguem os links para o vídeo e para a descrição. Aliás, além de um excelente profissional de informática e de um baita letrista, o Jério está se mostrando também um ótimo roteirista para audiodescrição. Quem sabe???...
Para assistir ao vídeo do Natal Digital, Clique aqui. Para ler a descrição minuciosa e muito bem feita do meu amigo Jério Eber Pereira, Clique aqui.
Se você deseja seguir o meu amigo Jério Eber no Twitter, o que eu recomendo fortemente, procure pelo @Comjota. É uma dose diária de crítica com um delicioso sarcasmo e muito bom humor.
Quando cliquei no link do vídeo pela primeira vez, reclamei, pelo Twitter, da falta de uma audiodescrição, afinal, não havia qualquer narração para que pudéssemos saber o que se passava na historinha. No dia seguinte, recebi um e-mail do meu amigo Jério Eber, parceiro em algumas canções e amigo há quase duas décadas. Lá estava a descrição completa do vídeo, inclusive com as legendas. O trabalho ficou tão bom e tão minucioso que, na minha opinião, seria injusto privar outros cegos de desfrutá-lo.
Por isso, seguem os links para o vídeo e para a descrição. Aliás, além de um excelente profissional de informática e de um baita letrista, o Jério está se mostrando também um ótimo roteirista para audiodescrição. Quem sabe???...
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terça-feira, 9 de novembro de 2010
Brasília: 50 anos para o Brasil, um ano para mim

As pernas pareciam não me obedecer naquela tarde. Não era a primeira e nem seria a última vez que eu daria os passos que separavam o saguão da sala de embarque do aeroporto de Confins, mas, naquele momento, a porta, o detector de metais, o raio X, enfim, tudo tinha um significado especial. Depois de 28 anos, 8 meses e 22 dias morando na mesma cidade, a Belo Horizonte onde cheguei aos 7 anos, eu dava um passo adiante em minha vida pessoal e profissional. E que passo! Um passo de quase 800 quilômetros, ficando ainda mais distante do mar, cercado de Goiás por todos os lados.
Já havia algum tempo que eu tinha vontade de vir para Brasília, muito mais pelas oportunidades profissionais que isso me reservava do que propriamente por achar a cidade atraente. E, naquele momento no aeroporto, a situação era ainda mais complicada. Por questões profissionais, Marisa, minha esposa ainda não estava vindo comigo. Enquanto isso não fosse possível, eu me viraria morando em um flat, que me facilitaria muito a vida pelo fato de possuir serviço diário de arrumação. Assim, foi com duas malas enormes, meu violão, mochila nas costas e um coração comprimido no peito que tomei aquele voo de fim de tarde e pousei na capital do país antes que a noite chegasse por inteiro.
Se, por um lado, eu deixava grandes amigos (de quem nunca me esqueço) em Belo Horizonte, outras amizades começavam a aparecer no Planalto Central. Uma delas se manifestou exatamente na minha chegada. Uma das participantes da lista de discussão de utilizadores e interessados no tema "Cão Guia", Fernanda, que atua como voluntária na socialização de futuros cães guias no projeto Integra, aqui no Distrito Federal, perguntou-me por e-mail se eu tinha quem me apanhasse no aeroporto. Eu disse que não e ela se ofereceu não só para me buscar como para dar as primeiras orientações nas proximidades do flat onde eu iria morar. Foi muito bom encontrá-la na saída da sala de desembarque. Assim que colocamos as coisas no carro dela e começamos a andar, ela foi tentando me explicar a tal lógica dos endereços de Brasília. Eu já havia estado na cidade algumas vezes e tinha amigos que haviam tentado a mesma missão. Mas agora, pensava eu, era imprescindível que eu aprendesse esse sistema de setores, quadras e blocos, ou eu teria dificuldades para me locomover na cidade. Certamente não foi naquela tarde-noite que eu aprendi, mas as coisas começaram a fazer algum sentido.
No flat, o porteiro se assustou com o fato de um morador completamente cego e só estar se mudando. Ele ficou tão apavorado que começou a se dirigir a Fernanda em vez de falar comigo, o que me obrigou a chamar sua atenção para o fato de que o morador seria eu e não ela. Corrigida a falha, o cara começou a agir um pouco mais naturalmente e me perguntou as informações necessárias para preencher a ficha de entrada.
Depois de me ajudar a fazer o reconhecimento do apartamento, auxiliando inclusive na marcação em braile das teclas em baixo relevo do microondas, Fernanda me levou ao Brasília Shopping, para que eu pudesse jantar e passar em uma loja em que um vendedor me ajudasse a dar um nó em minha gravata. É que, infelizmente, ainda não aprendi a dar nó em gravatas, principalmente porque nunca tentei aprender. Como eu tinha mandado as gravatas para a lavanderia antes da viagem, os nós foram desfeitos e eu precisava resolver aquilo rapidamente, porque minha posse como servidor da Câmara dos Deputados seria na manhã seguinte.
Tudo resolvido, Fernanda me deixou na porta do flat e seguiu seu caminho. Era difícil entrar naquele pequeno apartamento com sala e cozinha americana, quarto e banheiro, e pensar que, durante algum tempo, aquela seria minha casa. Era difícil pensar que, no dia seguinte, eu precisaria sair dali em direção ao Congresso Nacional, mal sabendo onde ele ficava. Era difícil não saber sequer um número de ônibus e quanto ficaria uma corrida de táxi até o local. Será que 20 reais bastariam ou seria necessário desembolsar uns 50? Contudo, mais difícil era viver tudo isso distante da pessoa com qem eu havia dividido cada centímetro quadrado da minha vida nos últimos 11 anos. Faltavam 19 dias para o nosso aniversário de casamento. E eu pensava como determinados momentos da nossa vida podem ser cruéis. Tínhamos combinado que ela viria passar comigo o meu aniversário, mas a data do casamento passaríamos longe um do outro.
Mas tudo isso já tem um ano. Nesse 9 de novembro de 2010, completaram-se 365 dias que cheguei a esse lugar que, cada dia mais, considero minha casa. Principalmente porque Marisa, esse grande presente que Deus me deu, está comigo todos os dias. É muito bom sair para o trabalho sabendo que, na volta, estaremos juntos de novo. Desde 14 de maio, quando ela se mudou definitivamente para cá, Brasília passou a ter mais sentido para mim.
É claro que ainda temos muito o que aprender, muito que nos acostumarmos nessa cidade tão diferente da nossa. Mas, aos poucos, ela também vai se tornando nossa. Queremos mostrar às pessoas que aqui vêm a Catedral, o Congresso, o Centro Cultural Banco do Brasil, o Lago Paranoá, enfim, queremos mostrar a Brasília que agora faz parte de nós. E é assim que, pouco a pouco, a Brasília que, para os brasileiros, fez 50 anos, cria em mim suas raízes. Afinal, minha Brasília tem apenas um ano. Estou feliz.
Para que serve o Enem?
O mais recente embróglio no qual se meteu o Ministério da Educação, na tentativa de explicar o inexplicável e justificar o injustificável, isto é, o segundo ano seguido de problemas na aplicação do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem), trouxe ao debate as evidentes fragilidades da instituição no aspecto organizacional/logístico. As falhas verificadas no ano passado, com o extravio de provas e o vazamento de dados dos estudantes cadastrados para realizar o exame, já deveria ter servido de bom alerta para que, no Enem 2010, o governo tivesse um pouco mais de critério na contratação das empresas responsáveis pela prova, desde sua elaboração até etapas como impressão, transporte e distribuição. Os acontecimentos deste ano provam que isso não ocorreu.
Entretanto, os sucessivos problemas na aplicação do Enem podem não trazer a baila uma discussão talvez mais importante do que a simples logística. E, infelizmente, a imprensa gasta às vezes tempo demais no superficial e aprofunda de menos as discussões que deveriam ser centrais, mas passam a ser periféricas. Nesse caso, pouco se falou no objetivo da aplicação do Enem, ou seja, para que ele serve. Penso que esse deveria ser o centro da discussão. Toda a polêmica criada em torno da aplicação do exame só teve lugar porque, com a adoção da nota do Enem, total ou parcialmente, como critério para o ingresso nas universidades públicas, ele passou a ter uma importância vital para os estudantes em vias de concluir o ensino médio. Talvez, se as notas não tivessem tanto valor, alguns estudantes não estariam tão preocupados se o seu caderno de questões era amarelo ou de qualquer outra cor, se o seu gabarito estava correto etc.
Ora, todo esse frenesi ocorre exatamente porque, nos últimos anos, o governo inverteu o papel que cabia ao Enem, que passou a ser muito mais uma espécie de substituto para o vestibular do que um sistema de avaliação do ensino médio, objetivo para o qual ele foi criado. Para quem não se lembra, o Exame Nacional de Ensino Médio foi criado ainda no governo FHC, algum tempo depois do Exame Nacional de Cursos, o chamado Provão, instituído para avaliar o ensino superior. Apesar de criticar duramente o Provão, com bastante barulho feito pela União Nacional dos Estudantes (UNE), o PT manteve o sistema, trocando apenas o nome para Enad, e manteve com o mesmo nome o Enem. Partiu de algumas universidades a iniciativa de utilizar a nota do Enem como parte da avaliação para o ingresso de novos universitários. Posteriormente, o governo alinhavou um grande acordo com as universidades federais, que permitiu aos estudantes pleitear vaga em um determinado curso em dada instituição a partir do resultado obtido no exame.
Esse sistema trouxe vantagens, como o fim da necessidade de se prestar vários vestibulares. Por outro lado, o objetivo que ensejou a criação do exame, ou seja, avaliar as instituições de ensino médio no Brasil, se perdeu completamente. E a razão é simples: se a nota do Enem determina o ingresso ou não do estudante em determinada universidade em um certo curso, é evidente que o foco do aluno passa a ser um bom resultado na prova. Assim, ele se prepara, estuda a partir de provas passadas, chegando, em alguns casos, a frequentar cursos preparatórios para prestar o exame.
Ora, como é possível avaliar a escola na qual o indivíduo cursou o ensino médio se ele, em vez de levar com normalidade sua vida acadêmica, passou horas por dia se preparando para esse exame? Na verdade, o que está-se avaliando com o Enem é a capacidade dos alunos de absorver conhecimento a partir de uma atividade intensa de estudos, ou seja, exatamente o mesmo tipo de avaliação feita com o vestibular. Bingo! Dá então para deduzir que o Enem não é sequer um substituto para o vestibular, posto que o Enem nada mais é do que um vestibular em nível nacional.
O resultado disso é que o governo não dispõe atualmente de instrumentos/mecanismos eficazes para avaliar o ensino médio no país. O papel do Enem para esse fim foi suprimido e nada foi colocado no lugar. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) poderia ser uma resposta a essa lacuna, mas ele é amplo demais para obtermos um retrato especificamente sobre o ensino médio.
É evidente que o clássico vestibular, sozinho, não era o instrumento adequado para o acesso à universidade. Mas utilizar o Enem para isso configura outro erro, desviando o propósito de um instrumento criado para algo tão vital quanto entrar para o ensino superior: avaliar o ensino médio para corrigir suas falhas e permitir que o aluno que ingresse na universidade esteja mais bem preparado.
Entretanto, os sucessivos problemas na aplicação do Enem podem não trazer a baila uma discussão talvez mais importante do que a simples logística. E, infelizmente, a imprensa gasta às vezes tempo demais no superficial e aprofunda de menos as discussões que deveriam ser centrais, mas passam a ser periféricas. Nesse caso, pouco se falou no objetivo da aplicação do Enem, ou seja, para que ele serve. Penso que esse deveria ser o centro da discussão. Toda a polêmica criada em torno da aplicação do exame só teve lugar porque, com a adoção da nota do Enem, total ou parcialmente, como critério para o ingresso nas universidades públicas, ele passou a ter uma importância vital para os estudantes em vias de concluir o ensino médio. Talvez, se as notas não tivessem tanto valor, alguns estudantes não estariam tão preocupados se o seu caderno de questões era amarelo ou de qualquer outra cor, se o seu gabarito estava correto etc.
Ora, todo esse frenesi ocorre exatamente porque, nos últimos anos, o governo inverteu o papel que cabia ao Enem, que passou a ser muito mais uma espécie de substituto para o vestibular do que um sistema de avaliação do ensino médio, objetivo para o qual ele foi criado. Para quem não se lembra, o Exame Nacional de Ensino Médio foi criado ainda no governo FHC, algum tempo depois do Exame Nacional de Cursos, o chamado Provão, instituído para avaliar o ensino superior. Apesar de criticar duramente o Provão, com bastante barulho feito pela União Nacional dos Estudantes (UNE), o PT manteve o sistema, trocando apenas o nome para Enad, e manteve com o mesmo nome o Enem. Partiu de algumas universidades a iniciativa de utilizar a nota do Enem como parte da avaliação para o ingresso de novos universitários. Posteriormente, o governo alinhavou um grande acordo com as universidades federais, que permitiu aos estudantes pleitear vaga em um determinado curso em dada instituição a partir do resultado obtido no exame.
Esse sistema trouxe vantagens, como o fim da necessidade de se prestar vários vestibulares. Por outro lado, o objetivo que ensejou a criação do exame, ou seja, avaliar as instituições de ensino médio no Brasil, se perdeu completamente. E a razão é simples: se a nota do Enem determina o ingresso ou não do estudante em determinada universidade em um certo curso, é evidente que o foco do aluno passa a ser um bom resultado na prova. Assim, ele se prepara, estuda a partir de provas passadas, chegando, em alguns casos, a frequentar cursos preparatórios para prestar o exame.
Ora, como é possível avaliar a escola na qual o indivíduo cursou o ensino médio se ele, em vez de levar com normalidade sua vida acadêmica, passou horas por dia se preparando para esse exame? Na verdade, o que está-se avaliando com o Enem é a capacidade dos alunos de absorver conhecimento a partir de uma atividade intensa de estudos, ou seja, exatamente o mesmo tipo de avaliação feita com o vestibular. Bingo! Dá então para deduzir que o Enem não é sequer um substituto para o vestibular, posto que o Enem nada mais é do que um vestibular em nível nacional.
O resultado disso é que o governo não dispõe atualmente de instrumentos/mecanismos eficazes para avaliar o ensino médio no país. O papel do Enem para esse fim foi suprimido e nada foi colocado no lugar. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) poderia ser uma resposta a essa lacuna, mas ele é amplo demais para obtermos um retrato especificamente sobre o ensino médio.
É evidente que o clássico vestibular, sozinho, não era o instrumento adequado para o acesso à universidade. Mas utilizar o Enem para isso configura outro erro, desviando o propósito de um instrumento criado para algo tão vital quanto entrar para o ensino superior: avaliar o ensino médio para corrigir suas falhas e permitir que o aluno que ingresse na universidade esteja mais bem preparado.
domingo, 29 de agosto de 2010
Meu quintal é minha rua

Nos felizes dez anos da minha vida que passei no bairro Palmeiras, região oeste da minha querida BH, curti ao máximo o fato de minha casa ter um quintal, e bem grande! E de todas as alegrias que o quintal mais me proporcionava, o canto dos pássaros era sem dúvida a do topo da lista.
Como um desafiador da madrugada, tive o privilégio de observar o amanhecer do dia por diversas vezes. E parecia que os instrumentos, ou seja, os pássaros, seguiam uma ordem previamente estabelecida e perfeitamente ensaiada. Primeiro, as garrinchas e os bem-te-vis. A eles, somavam-se os pardais com seu pio, dependendo da época o sabiá, e, por volta das 7h, um bando de maritacas aparecia voando e fazendo uma grande festa. Aquilo tudo era música aos meus ouvidos, tanto quanto a Nona de Beethoven ou um belo tema de Miles Davis. Eu costumava dizer que eu tinha inúmeros passarinhos em casa, mas todos soltos, que iam e vinham quando tinham vontade, exatamente como tem que ser.
Quando me mudei para Brasília, em novembro do ano passado, fiquei pensando nas perdas que teria. Não é fácil mudar de casa para apartamento, sobretudo apartamentos pequenos. Mas uma das coisas que me preocupava realmente era se eu teria a presença dos pássaros tão perto de mim. Achava que não. Para minha alegria, eu estava errado.
Brasília é uma cidade que tem como característica marcante a disponibilidade de áreas verdes. Além do famoso Parque da Cidade, imortalizado na canção Eduardo e Mônica, de Renato Russo, as quadras residenciais do Plano Piloto possuem muitos espaços arborizados. E onde existem árvores, lá estão os pássaros para fazer sua festa sobre os galhos. As quadras numeradas com a centena 700 (para entender como funciona a numeração das quadras é preciso um artigo a parte) são constituídas por casas geminadas, com espaços bastante amplos na frente, sem muros em grande parte delas. Nesses quintais de frente, também há árvores e muitos pássaros.
Perto do prédio onde moro, o joão-de-barro é o primeiro a dar o tom da orquestra. A ele, segue-se o bem-te-vi e os pardais, mais uma turma de outras aves cujo som não conheço bem.
border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5510733154787350594" />As fotos deste post são de anus, aves que geralmente andam em bandos e são excelentes caçadoras de insetos. Quando estão se alimentando, não fazem muito barulho, mas seu som de alerta é bem característico. Essas aves também aparecem muito por aqui.
Fico muito feliz pelo fato de poder continuar a desfrutar da companhia dos pássaros. Se não os posso ter mais no quintal da minha casa, então que a rua seja meu quintal! Em Brasília, essa é uma grande verdade. Os espaços de convivência são muitos e a rua, o parque, os jardins, tudo acaba se transformando num grande quintal para todos nós. Espero que saibamos cuidar dele.
sábado, 21 de agosto de 2010
Quem é o vencedor?

Assistir à derrota de um campeão não é algo bom, sobretudo quando se sabe que o atleta em questão é um dos maiores motivos de orgulho para o Brasil nos últimos tempos. Nesta noite de sábado, César Cielo (foto 1) ficou com a medalha de prata na final A dos 50 m nado livre, no Pan-Pacífico de natação, que está sendo disputado na Califórnia, EUA. E, como é seu costume, ele não ficou satisfeito com outro resultado que não fosse a vitória.
A frustração por não ficar em primeiro lugar em uma competição, a cobrança de si próprio por um melhor rendimento, o inconformismo diante de um resultado que, para o torcedor, não parece ruim, mas para o atleta é sim uma derrota, tudo isso pode parecer uma certa presunção ou arrogância de quem não sabe perder. Mas o fato é que o sentimento contrário, ou seja, a sensação de dever cumprido ao se conquistar um segundo ou um terceiro lugar, a celebração de um vice-campeonato como se um título fosse, são elementos que contribuem fortemente para o mau desempenho de alguns atletas brasileiros em competições de alta performance. O que faz de César Cielo um campeão não é só seu grande talento e capacidade de rendimento como atleta, mas o fato de reconhecer em si mesmo um campeão e não aceitar a derrota como um resultado normal. Pode ser normal se o atleta se preparou para a prata, o bronze, ou simplesmente pela classificação para a final. Mas, para quem se prepara para o ouro, a prata não pode ser considerada normal.
Então, o Montanha está dizendo que só é vencedor quem ganha a medalha de ouro? Certamente não. Estou dizendo que só é vencedor quem atinge a sua meta. Um exemplo é o bronze da Fabíola Molina conquistado na noite de quinta-feira, no mesmo torneio, nos 50 m costas. Para uma atleta de 35 anos, competindo com garotas até com menos da metade de sua idade, o terceiro lugar é uma vitória. Afinal, ela tem plena consciência de que a idade é um fator que diminui seu rendimento frente às concorrentes e que ela muito provavelmente está fora da briga pelo ouro. Assim, sua meta é buscar o melhor resultado possível, de preferência uma medalha, diante da desvantagem que tem. E Fabíola Molina conseguiu!
alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5508095985217913986" />Creio que o melhor exemplo que posso dar em contraposição a César Cielo é o de Felipe Massa (foto 2). A polêmica sobre a ultrapassagem amigável de Fernando Alonso, no dia 25 de julho último, assim como ocorreu com Rubens Barrichello e Schumacher em 2002, mostra um tipo de esportista infelizmente cada vez mais comum: que coloca o dinheiro acima de sua honra como atleta e de sua ética desportiva, que não têm o devido apreço pela vitória ou as duas coisas juntas. Nunca torci por Felipe Massa por não o considerar um grande piloto. Mas o episódio com Alonso mostrou o comodismo de alguém que não quer arriscar a conta bancária em nome de um reconhecimento por agir de maneira ética. Pior: a punição de apenas Us$100 mil aplicada à Ferrari mostra que a Federação Internacional de Automobilismo é conivente com essa prática.
A postura de vítima adotada por Massa e por parte da imprensa brasileira não escondem o fato de que, tanto quanto Alonso e a Ferrari, o piloto brasileiro foi responsável pelo que aconteceu no Grande Prêmio da Alemanha de F-1. O que a FIA deveria ter feito, a meu ver, seria retirar os pontos da Ferrari no mundial de construtores e igualmente dos dois pilotos na competição, promovendo cada um dos demais pilotos em duas posições na linha de chegada. Assim, o terceiro colocado seria declarado vencedor, o quarto ficaria em segundo e assim por diante.
A questão é, portanto, muito mais complexa do que ser primeiro ou segundo lugar. Não pode ser considerado vencedor o atleta que, tendo as condições físicas e técnicas para estar em primeiro lugar, não tem a vitória como único e exclusivo alvo. Não pode ser perdedor o atleta que não chega em primeiro, mas sabe que, por uma limitação qualquer, não poderia ir além e chegou ao melhor resultado possível. Massa é um piloto jovem, tem um ótimo carro e experiência considerável. Tem portanto os requisitos para ser vencedor, mas não é. César Cielo também tem os requisitos para ser campeão e, quando isso não acontece, ele não se conforma. E é por isso que ele é um vencedor.
A gente fica cansado de tanto escutar o hino dos Estados Unidos nas competições internacionais e se esquece de perguntar o porquê. É porque o espírito esportivo do norte-americano está baseado no pressuposto de que é preciso vencer, não apenas competir, como foi o caso da ginasta, cujo nome não recordo, que terminou sua série e saiu carregada, chorando com dores insuportáveis, mas conquistou o ouro para o seu país.
Alguém já disse que o segundo colocado é só o primeiro entre os perdedores. É claro que o pensamento é radical e intolerante demais e o torcedor não deve adotar essa idéia como filosofia. Mas, para o atleta, um pouco de radicalismo, de obsessão pela vitória, não faz mal nenhum. E se não nos conformássemos tanto com resultados medianos, talvez nossa performance em grandes competições, como os Jogos Olímpicos, seria melhor.
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sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Vida longa aos gatos, pretos ou não, e uma ótima sexta-feira 13!

Desde pequeno, eu sempre tive um macabro interesse por histórias macabras. Não é por acaso que sou fã da série Twilight Zone, sobretudo das histórias feitas para o rádio, que despertavam mais ainda a imaginação da gente. Mas, ao contrário de muita gente, que tem um certo receio ou medo de ouvir ou assistir a esse tipo de drama, eu encaro tudo com muito humor e, quanto maior o medo que a história possa causar, mais eu acho interessante. Acho que o melhor lugar e hora para se contar uma história verdadeiramente aterrorizante é em um lugar escuro como o nosso quarto ou a sala, à meia-noite e de preferência com bastante frio e vento lá fora.
E se há uma coisa que não falta numa sexta-feira 13, como hoje, são histórias macabras, envolvendo gatos pretos, caveiras, cemitérios, fantasmas e tudo mais. Mas por que será que o número 13, e especificamente na sexta-feira, tem tanta influência sobre as ações dos mais supersticiosos? Por que tem gente que não fecha negócios numa sexta-feira 13? Outros não viajam, não saem de casa, não passam em determinados lugares... Enfim, o que não falta é gente que, de uma maneira ou de outra, muda suas atitudes por causa da combinação do dia da semana e do dia do mês.
Não tenho a resposta para isso e sinceramente não vou empreender uma pesquisa minuciosa para buscar alguma resposta convincente. Mas uma das coisas que se comenta por aí é que a má fama do número 13 está ligada à Última Ceia, episódio que marcou a despedida de Jesus dos seus discípulos, pouco antes de sua crucificação e morte. Segundo os evangelhos, Jesus se reuniu com seus discípulos para celebrar a Páscoa, que, na tradição judaica, marca a saída do povo hebreu do Egito e o retorno à terra de Canaan, sob a liderança de Moisés. Pois bem: o número 13 não aparece na narrativa da Última Ceia, mas nem precisa. Se lá estavam apenas Jesus e os seus discípulos, que eram 12, fica fácil deduzir que havia 13 pessoas à mesa naquela noite. Não nos esqueçamos ainda que foi durante a ceia que Jesus anunciou que seria traído por um dos 12. Para completar, a história diz que a crucificação se deu numa sexta-feira.
Existem ainda duas lendas de origem nórdica que explicam a má fama da sexta-feira 13 ou, mais especificamente, do número 13 como sinal de azar, mas não vou entrar em detalhes sobre elas. Prefiro falar do gato preto! Pobre animal! Desde o início da idade moderna, por volta do século XVI, que o gato preto ganhou fama de trazer má sorte. Conta-se que, pela sujeira muito grande das cidades européias nesse período, e pelo consequente aumento da população de ratos, não faltava alimentos aos gatos, que por sua vez também se multiplicavam. Gatos de todas as cores, mas foi o gato preto que acabou associado à feitiçaria e foi duramente perseguido. Acreditem: um decreto do Papa Inocêncio VIII considerava o gato preto um ser erege. Por isso, vários deles foram queimados na Inquisição, junto com os humanos considerados feiticeiros.
Por causa de todas essas crendices, a sexta-feira 13 e o pobre gato preto ganharam fama de trazerem azar. Para mim, nada muda, exceto pela vontade de abordar o tema numa postagem do blog. E, se algo acontece de errado na sexta-feira 13, não credito o ocorrido ao dia da semana ou do mês, mas é claro que aproveito a situação para tirar onda. Um dos fatos mais inusitados de que me lembro foi em 1984, quando viajamos de BH para o Rio de Janeiro minha irmã, meu pai, minha mãe e eu, a fim de passar alguns dias de férias. Era no dia 13 de janeiro, sexta-feira, que o trem Vera Cruz nos levaria. A partida estava marcada para as 20h15, mas, por causa de defeitos no sistema de refrigeração, partimos com mais de duas horas de atraso. Não houve quem não brincasse com a situação, afirmando que havia um gato preto embaixo do trem, segurando a partida. Quanto poder pode ter um gato preto!!!
Mas, se a sexta-feira 13, à meia-noite, já é motivo para assustar alguns, imagine a sexta-feira 13 com duas meia-noites! Pois o fato aconteceu, no Brasil, em 1987. Normalmente, tanto o início como o fim do horário de verão acontecem na noite de sábado para domingo. Não me pergunte o porquê, mas, em 1987, o fim do horário de verão ocorreu na noite de sexta-feira para sábado, exatamente do dia 13 para o dia 14 de fevereiro. É por isso que a sexta-feira, 13 de fevereiro de 1987, teve, no seu término, duas meia-noites, já que, quando os relógios marcavam 0h, foram atrasados em uma hora, voltando às 23h, chegando novamente, dentro de uma hora, às 0h. Ou seja, a sexta-feira não só teve duas vezes a marcação de 0h, como durou 25 horas! Uma hora a mais de terror para os supersticiosos!
E o vírus de computador mais famoso da história? Alguém se lembra do lendário Sexta-Feira 13? Era um verdadeiro pânico, e pane, causados em sistemas informatizados pelo mundo a fora. Toda sexta-feira 13, o vírus atacava bancos de dados e causava enorme destruição em discos rígidos, causando um prejuízo assustador em empresas no mundo inteiro.
No fim disso tudo, só acho uma tremenda injustiça colocar a responsabilidade nos gatos pretos pelo azar, ou má sorte, ou o que quer que seja. Acreditar em mitos ou lendas é um direito de qualquer pessoa, mas os animais não precisam sofrer por causa da superstição dos humanos. Atualmente, tanto as associações que cuidam de animais abandonados quanto os centros de controle de zoonoses estão atentos e, quando aparece alguém querendo um gato preto para criar, esses animais não são liberados em datas próximas à sexta-feira 13. Boa atitude. Infelizmente, ainda tem gente que deseja levar sua crença aos extremos ou têm mesmo um espírito cruel. Não tenho gatos e não tenho vontade de tê-los. Mas tenho um grande respeito por eles e sou contra qualquer tipo de crueldade contra qualquer animal. Ao contrário do que se diz, gato não tem sete vidas. Tem apenas uma, e é preciso preservá-la. Pretos ou de qualquer outra cor, vida longa aos gatos e que a sexta-feira 13, deles e nossa, seja repleta de muitas coisas boas.
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Sexta-feira 13
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