domingo, 15 de maio de 2011

Ed Motta, Odete Roitman e a "gente diferenciada"

Não é por acaso que três fatos que chamaram a atenção na semana passada tiveram, como pano de fundo, o preconceito em relação às classes sociais, às regiões de origem das pessoas e a uma certa antibrasilidade (se é que posso chamara assim) por parte de alguns. As lamentáveis frases escritas pelo cantor Ed Motta em seu perfil no Facebook, a recusa de moradores de uma região de alto poder aquisitivo de São Paulo em ter por perto uma estação do metrô, sob a alegação de que o transporte de massa leva uma "gente diferenciada", e as frases preconceituosas de uma torcedora do Flamengo em relação aos nordestinos podem ter origem num fenômeno antigo: a estagnação intelectual da antiga classe média brasileira.

Recentemente, numa entrevista para o canal por assinatura Globonews, a atriz Beatriz Segall afirmou que, no contexto político e econômico em que foi produzida a novela Vale Tudo, sua personagem na trama, a vilã Odete Roitman, tinha uma certa razão nas críticas que fazia ao país. Como devem se lembrar os que viveram o período da redemocratização do Brasil, não foi só a personagem de Beatriz Segall que disparou críticas em relação à falta de seriedade das instituições e até mesmo de parte do povo brasileiro. Os programas de humor da época se fartavam de dizer que, no Brasil, tudo se resolvia na malandragem, no jeitinho. E outro ponto dessa crítica era a inevitável comparação com os países do chamado Primeiro Mundo, mais especificamente Estados Unidos e os países europeus. Essas críticas nasciam dentro das pessoas de maior poder aquisitivo, que já naquela época viajavam para o exterior e compravam produtos importados, e era fartamente absorvida pelos mais pobres através da televisão.

Ocorre que, desde que o Brasil começou a tratar com seriedade alguns de seus problemas mais crônicos, como a inflação e a desigualdade, emergiu uma nova classe média, que só pôde se viabilizar porque experimentou uma condição mais favorável de renda, trabalho e até mesmo escolaridade. Fato é que o Brasil dos últimos 18 anos, os dois anos do governo Itamar Franco e os oito de FHC e de Lula, mudaram bastante o cenário econômico do país. E essa nova classe média que emergiu da pobreza tem um certo sentimento de gratidão por estar onde está. É claro que isso se traduz em votos, haja vista a tranquila reeleição de Fernando Henrique Cardoso em 1998, sinalizando que o povo aprovava as mudanças na economia, e as duas eleições de Lula, apontando o desejo de um aprofundamento nas questões sociais. Mas se traduz também numa defesa mais efusiva do país. Quem estava na miséria, ou muito próximo dela, durante os governos de Sarney e Collor, enxerga hoje um Brasil que, apesar de muitas deficiências, especialmente nas instituições políticas, é muito diferente (quero dizer melhor, mais atraente, mais interessante) do que aquele de quase 20 anos atrás.

E quanto àqueles que, no período da redemocratização, já pertenciam à classe média, especialmente a alta? Esse é um grupo para quem as mudanças ocorridas no país nos últimos governos não tiveram tanta importância. Essa classe média alta continuou indo ao exterior fazer compras, continuou adquirindo importados e continuou pensando que o que é bom vem de fora e o que é feito no Brasil não presta. Quando essas críticas estão focadas apenas nas coisas, como os produtos manufaturados aqui, ou nas instituições, o discurso, embora preconceituoso na essência, pode muito bem ser esquecido ou ignorado. O problema é quando esse pensamento, bem ao estilo Odete Roitman, se volta contra o povo.

Daí aparecem frases de preconceito regional, afirmando que pessoas de uma determinada região são mais bonitas e civilizadas do que de outras, como disse Ed Motta comparando o Sul do Brasil e a cidade de São Paulo com o restante do país. O que o cantor fez em seu perfil do Facebook foi nada menos do que utilizar velhos estereótipos para definir o povo brasileiro, como relaxado, mal vestido, feio etc. Também a torcedora do Flamengo, ao manifestar o seu desgosto pela derrota de seu time para o Ceará, trouxe nas palavras a carga de preconceito que vem do tempo em que o êxodo de nordestinos para o Sul e Sudeste era muito grande. Essa realidade mudou e hoje o nordeste recebe de volta muitos dos que um dia tentaram a vida em outros estados. Mas não mudou a mente da torcedora, que certamente ouviu esse tipo de frase em casa. É a mesma mentalidade que norteia os moradores do bairro paulistano de Higienópolis, que não desejam conviver com a tal "gente diferenciada", entrando e saindo de uma estação do metrô.

No caso específico de Ed Motta, cujo trabalho musical aprecio muito, as declarações soaram mais estranhas. Sobretudo porque, alguns dias antes, o cantor havia estado em Manaus e postou, no seu Twitter, elogios rasgados à capital amazonense, com especiais referências à culinária da cidade. É evidente que esse fato não diminui a gravidade do que o músico postou no Facebook. Também não ajuda a fala posterior de que se tratava de uma brincadeira com amigos. Talvez, se Ed Motta, especialista em vinhos, dissesse que havia passado da conta na sua experimentação, seria mais compreensível. Mas o fato é que, além de postar as infelizes ofensas a artistas e aos brasileiros de um modo geral, Motta discutiu com um jovem que questionou suas declarações, prova de que ele sabia que o perfil estava aberto e sabia bem o que dizia. É notório que o cantor nunca escondeu suas preferências por muita coisa que vem dos Estados Unidos, inclusive a música, que tanto o influenciou. Em seus tweets, Motta frequentemente usa expressões em inglês, principalmente para elogiar algo que deseja mostrar aos seus seguidores. Após um link do Youtube para determinada música, leem-se expressões como "deep", ou "deep style". O que não se sabia, e as frases no Facebook deixaram claro, é que essas manifestações americanizadas não são apenas um estilo, mas uma preferência e, pior, uma visão preconceituosa do seu próprio país.

Quem me conhece e acompanha o que escrevo aqui ou no Twitter sabe que não sou ufanista. Longe de mim aquela idéia de "pra frente Brasil", que funcionou tão bem no regime militar. Para mim, ir para frente é mais do que ter uma música, uma boa seleção de que esporte seja. Ir adiante na história é fazer com que o povo se veja como nação e, com os pés fincados na realidade, trabalhe para construir o futuro. Acho que, aos trancos e barrancos, em meio a escândalos, politicagens, o Brasil tem sobrevivido e melhorado. Não podemos achar que estamos no paraíso, mas também não podemos pensar que, ao pousarmos no aeroporto JFK, em Nova York, estaremos na terra de todos os sonhos. Contudo, infelizmente, parece que a antiga classe média alta, para quem o país estar bem ou mal faz pouca diferença, já que ela tem os recursos para se manter de um jeito ou de outro, ainda enxerga o país como o Brasilde Odete Roitman, Ed Mota e dos moradores de Higienópolis. Já cheguei a ouvir até que, se a Apple de fato abrir uma fábrica no Brasil, IPhone, IPad e os demais produtos da companhia vão perder em qualidade, já que tudo que é fabricado neste país não presta. O que muitos se esquecem é que os produtos tão orgulhosamente comprados nos Estados Unidos foram, em grande parte, produzidos na China, Malásia, Singapura e outros tigres asiáticos.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O Mexidão foi no Congresso Nacional!

Deu tudo certo. Saiu exatamente como o planejado. Quase nada fora do script. Talvez um número de votos menor que o esperado, talvez votos em excesso para um rebelde, mas, no fim das contas, as eleições que definiram os presidentes da Câmara e do Senado ontem foram de acordo com o que o governo desejava. Aliás, não só o governo, e talvez seja esse o grande problema.

Na verdade, o que aconteceu ontem não é mais do que um retrato de como vem sendo tratada a relação entre os poderes da república desde a redemocratização do país, em 1985. É claro que, num cenário político/econômico de grande instabilidade, como foram os períodos de José Sarney e Fernando Collor na presidência, existe mais espaço para a "rebeldia" dos parlamentares insatisfeitos e a oposição tem mais bala na agulha para se afirmar como oposição. Mas, quando o país encontra o rumo da estabilidade, como ocorreu a partir da segunda metade do governo de Itamar Franco, ser contra se torna, por assim dizer, criticar o que está dando certo. E obviamente ninguém quer o desgaste de fazer papel de chato diante da opinião pública. Talvez por isso, os governos de Fernando Henrique Cardoso e Lula experimentaram pouca oposição, ou ainda, uma oposição desqualificada, desprovida de argumentos e cuja fala soava no vazio.

No governo FHC, ainda tínhamos um PT que, mesmo de maneira atabalhoada, assumia o papel de criticar o governo. Mas o PT ainda não havia experimentado as maravilhas do poder nesse período, de maneira que era mais fácil afirmar que, se estivesse no lugar dos tucanos, faria diferente. O PT chegou ao poder e, de duas uma: ou achou que os tucanos estavam certos e por isso não mexeu na essência da política de FHC, ou, mesmo discordando, não tinha de fato uma proposta de país melhor do que a dos antecessores.
Para o PSDB, a situação ficou ainda pior depois da eleição de Lula. Como fazer oposição se os adversários mantinham aquilo que havia sido implantado no governo tucano? Isso tornou o discurso peessedebista sem credibilidade. Muito possivelmente, isso explica o fracasso tucano nas duas últimas campanhas presidenciais.

Toda essa história é para ilustrar o quadro que vivemos hoje na política brasileira. Certa vez, em entrevista a um jornal de Belo Horizonte, o então prefeito da capital mineira e hoje ministro do desenvolvimento, indústria e comércio, Fernando Pimentel, chegou a dizer que, quem quer que assumisse o governo, a estabilidade conquistada a duras penas não seria posta em xeque. O que ele quis dizer, e com razão, é que não há mais espaço para soluções milagrosas no Brasil. Quando o país está caminhando de maneira tranquila, sem sobressaltos e com estabilidade política e econômica, fecham-se as portas para agendas messiânicas. Isso é bom? Sim, por uma parte. É sinal de que o país está prosperando e isso é reconhecido pelas principais correntes políticas. Por outro lado, a oposição perde boa parte do combustível que dá vida ao seu discurso e acaba sedendo a muitas das vontades do governo.

É isso que aconteceu ontem no Congresso. A eleição de Sarney e Marco Maia para presidir o Senado e a Câmara foi fruto de um grande acordo entre os partidos da base aliada e da oposição. O pior é que esse acordo não leva em conta apenas a estabilidade dos trabalhos no parlamento, mas tem uma contrapartida do governo, que é a generosa distribuição de cargos entre os partidos que o apóiam. Que a política brasileira é fisiologista e que os cargos são a razão do apoio de muitos partidos, não é novidade para ninguém. O mais grave é que, se a oposição aceita participar do acordo em nome da chamada construção do consenso, é sinal de que ela também compactua com os métodos do governo. E agora José? Que base tem para criticar o governo uma oposição que compactua com as manobras pouco éticas desse mesmo governo?

O fato é que o Congresso Nacional foi palco ontem da demonstração de que, atendidos os interesses de cada grupo político, governo e oposição podem caminhar de mãos dadas, numa espécie de pacto de não agressão, como aquele assinato por Hitler e Stalin antes da II Guerra Mundial. No fim das contas, governo e oposição fizeram um mexidão de camaradas, o que provou que as instituições políticas do país vão mal. Ao fim e ao cabo, PT e PSDB nada mais são do que as duas faces de uma moeda podre: o parlamento brasileiro.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Presente para os cegos: descrição completa do vídeo do Natal Digital

Um dos vídeos mais em voga nos últimos dias no Youtube é o que recria o episódio do nascimento de Jesus, contextualizando o fato para a era das redes sociais, sites de relacionamento, sistema de compras online e outras ferramentas dos nossos dias. Ocorre que, para pessoas cegas, como é o meu caso, o vídeo não passa de uma porção de barulhos característicos de programas de computador, muita digitação e a trilha musical por conta da versão de Jingle Bells para harpa paraguaia, versão que, diga-se, aparece em oito de cada dez comerciais natalinos.

Quando cliquei no link do vídeo pela primeira vez, reclamei, pelo Twitter, da falta de uma audiodescrição, afinal, não havia qualquer narração para que pudéssemos saber o que se passava na historinha. No dia seguinte, recebi um e-mail do meu amigo Jério Eber, parceiro em algumas canções e amigo há quase duas décadas. Lá estava a descrição completa do vídeo, inclusive com as legendas. O trabalho ficou tão bom e tão minucioso que, na minha opinião, seria injusto privar outros cegos de desfrutá-lo.

Por isso, seguem os links para o vídeo e para a descrição. Aliás, além de um excelente profissional de informática e de um baita letrista, o Jério está se mostrando também um ótimo roteirista para audiodescrição. Quem sabe???...

Para assistir ao vídeo do Natal Digital, Clique aqui. Para ler a descrição minuciosa e muito bem feita do meu amigo Jério Eber Pereira, Clique aqui.

Se você deseja seguir o meu amigo Jério Eber no Twitter, o que eu recomendo fortemente, procure pelo @Comjota. É uma dose diária de crítica com um delicioso sarcasmo e muito bom humor.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Brasília: 50 anos para o Brasil, um ano para mim


As pernas pareciam não me obedecer naquela tarde. Não era a primeira e nem seria a última vez que eu daria os passos que separavam o saguão da sala de embarque do aeroporto de Confins, mas, naquele momento, a porta, o detector de metais, o raio X, enfim, tudo tinha um significado especial. Depois de 28 anos, 8 meses e 22 dias morando na mesma cidade, a Belo Horizonte onde cheguei aos 7 anos, eu dava um passo adiante em minha vida pessoal e profissional. E que passo! Um passo de quase 800 quilômetros, ficando ainda mais distante do mar, cercado de Goiás por todos os lados.

Já havia algum tempo que eu tinha vontade de vir para Brasília, muito mais pelas oportunidades profissionais que isso me reservava do que propriamente por achar a cidade atraente. E, naquele momento no aeroporto, a situação era ainda mais complicada. Por questões profissionais, Marisa, minha esposa ainda não estava vindo comigo. Enquanto isso não fosse possível, eu me viraria morando em um flat, que me facilitaria muito a vida pelo fato de possuir serviço diário de arrumação. Assim, foi com duas malas enormes, meu violão, mochila nas costas e um coração comprimido no peito que tomei aquele voo de fim de tarde e pousei na capital do país antes que a noite chegasse por inteiro.

Se, por um lado, eu deixava grandes amigos (de quem nunca me esqueço) em Belo Horizonte, outras amizades começavam a aparecer no Planalto Central. Uma delas se manifestou exatamente na minha chegada. Uma das participantes da lista de discussão de utilizadores e interessados no tema "Cão Guia", Fernanda, que atua como voluntária na socialização de futuros cães guias no projeto Integra, aqui no Distrito Federal, perguntou-me por e-mail se eu tinha quem me apanhasse no aeroporto. Eu disse que não e ela se ofereceu não só para me buscar como para dar as primeiras orientações nas proximidades do flat onde eu iria morar. Foi muito bom encontrá-la na saída da sala de desembarque. Assim que colocamos as coisas no carro dela e começamos a andar, ela foi tentando me explicar a tal lógica dos endereços de Brasília. Eu já havia estado na cidade algumas vezes e tinha amigos que haviam tentado a mesma missão. Mas agora, pensava eu, era imprescindível que eu aprendesse esse sistema de setores, quadras e blocos, ou eu teria dificuldades para me locomover na cidade. Certamente não foi naquela tarde-noite que eu aprendi, mas as coisas começaram a fazer algum sentido.

No flat, o porteiro se assustou com o fato de um morador completamente cego e só estar se mudando. Ele ficou tão apavorado que começou a se dirigir a Fernanda em vez de falar comigo, o que me obrigou a chamar sua atenção para o fato de que o morador seria eu e não ela. Corrigida a falha, o cara começou a agir um pouco mais naturalmente e me perguntou as informações necessárias para preencher a ficha de entrada.

Depois de me ajudar a fazer o reconhecimento do apartamento, auxiliando inclusive na marcação em braile das teclas em baixo relevo do microondas, Fernanda me levou ao Brasília Shopping, para que eu pudesse jantar e passar em uma loja em que um vendedor me ajudasse a dar um nó em minha gravata. É que, infelizmente, ainda não aprendi a dar nó em gravatas, principalmente porque nunca tentei aprender. Como eu tinha mandado as gravatas para a lavanderia antes da viagem, os nós foram desfeitos e eu precisava resolver aquilo rapidamente, porque minha posse como servidor da Câmara dos Deputados seria na manhã seguinte.

Tudo resolvido, Fernanda me deixou na porta do flat e seguiu seu caminho. Era difícil entrar naquele pequeno apartamento com sala e cozinha americana, quarto e banheiro, e pensar que, durante algum tempo, aquela seria minha casa. Era difícil pensar que, no dia seguinte, eu precisaria sair dali em direção ao Congresso Nacional, mal sabendo onde ele ficava. Era difícil não saber sequer um número de ônibus e quanto ficaria uma corrida de táxi até o local. Será que 20 reais bastariam ou seria necessário desembolsar uns 50? Contudo, mais difícil era viver tudo isso distante da pessoa com qem eu havia dividido cada centímetro quadrado da minha vida nos últimos 11 anos. Faltavam 19 dias para o nosso aniversário de casamento. E eu pensava como determinados momentos da nossa vida podem ser cruéis. Tínhamos combinado que ela viria passar comigo o meu aniversário, mas a data do casamento passaríamos longe um do outro.

Mas tudo isso já tem um ano. Nesse 9 de novembro de 2010, completaram-se 365 dias que cheguei a esse lugar que, cada dia mais, considero minha casa. Principalmente porque Marisa, esse grande presente que Deus me deu, está comigo todos os dias. É muito bom sair para o trabalho sabendo que, na volta, estaremos juntos de novo. Desde 14 de maio, quando ela se mudou definitivamente para cá, Brasília passou a ter mais sentido para mim.

É claro que ainda temos muito o que aprender, muito que nos acostumarmos nessa cidade tão diferente da nossa. Mas, aos poucos, ela também vai se tornando nossa. Queremos mostrar às pessoas que aqui vêm a Catedral, o Congresso, o Centro Cultural Banco do Brasil, o Lago Paranoá, enfim, queremos mostrar a Brasília que agora faz parte de nós. E é assim que, pouco a pouco, a Brasília que, para os brasileiros, fez 50 anos, cria em mim suas raízes. Afinal, minha Brasília tem apenas um ano. Estou feliz.

Para que serve o Enem?

O mais recente embróglio no qual se meteu o Ministério da Educação, na tentativa de explicar o inexplicável e justificar o injustificável, isto é, o segundo ano seguido de problemas na aplicação do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem), trouxe ao debate as evidentes fragilidades da instituição no aspecto organizacional/logístico. As falhas verificadas no ano passado, com o extravio de provas e o vazamento de dados dos estudantes cadastrados para realizar o exame, já deveria ter servido de bom alerta para que, no Enem 2010, o governo tivesse um pouco mais de critério na contratação das empresas responsáveis pela prova, desde sua elaboração até etapas como impressão, transporte e distribuição. Os acontecimentos deste ano provam que isso não ocorreu.

Entretanto, os sucessivos problemas na aplicação do Enem podem não trazer a baila uma discussão talvez mais importante do que a simples logística. E, infelizmente, a imprensa gasta às vezes tempo demais no superficial e aprofunda de menos as discussões que deveriam ser centrais, mas passam a ser periféricas. Nesse caso, pouco se falou no objetivo da aplicação do Enem, ou seja, para que ele serve. Penso que esse deveria ser o centro da discussão. Toda a polêmica criada em torno da aplicação do exame só teve lugar porque, com a adoção da nota do Enem, total ou parcialmente, como critério para o ingresso nas universidades públicas, ele passou a ter uma importância vital para os estudantes em vias de concluir o ensino médio. Talvez, se as notas não tivessem tanto valor, alguns estudantes não estariam tão preocupados se o seu caderno de questões era amarelo ou de qualquer outra cor, se o seu gabarito estava correto etc.

Ora, todo esse frenesi ocorre exatamente porque, nos últimos anos, o governo inverteu o papel que cabia ao Enem, que passou a ser muito mais uma espécie de substituto para o vestibular do que um sistema de avaliação do ensino médio, objetivo para o qual ele foi criado. Para quem não se lembra, o Exame Nacional de Ensino Médio foi criado ainda no governo FHC, algum tempo depois do Exame Nacional de Cursos, o chamado Provão, instituído para avaliar o ensino superior. Apesar de criticar duramente o Provão, com bastante barulho feito pela União Nacional dos Estudantes (UNE), o PT manteve o sistema, trocando apenas o nome para Enad, e manteve com o mesmo nome o Enem. Partiu de algumas universidades a iniciativa de utilizar a nota do Enem como parte da avaliação para o ingresso de novos universitários. Posteriormente, o governo alinhavou um grande acordo com as universidades federais, que permitiu aos estudantes pleitear vaga em um determinado curso em dada instituição a partir do resultado obtido no exame.

Esse sistema trouxe vantagens, como o fim da necessidade de se prestar vários vestibulares. Por outro lado, o objetivo que ensejou a criação do exame, ou seja, avaliar as instituições de ensino médio no Brasil, se perdeu completamente. E a razão é simples: se a nota do Enem determina o ingresso ou não do estudante em determinada universidade em um certo curso, é evidente que o foco do aluno passa a ser um bom resultado na prova. Assim, ele se prepara, estuda a partir de provas passadas, chegando, em alguns casos, a frequentar cursos preparatórios para prestar o exame.

Ora, como é possível avaliar a escola na qual o indivíduo cursou o ensino médio se ele, em vez de levar com normalidade sua vida acadêmica, passou horas por dia se preparando para esse exame? Na verdade, o que está-se avaliando com o Enem é a capacidade dos alunos de absorver conhecimento a partir de uma atividade intensa de estudos, ou seja, exatamente o mesmo tipo de avaliação feita com o vestibular. Bingo! Dá então para deduzir que o Enem não é sequer um substituto para o vestibular, posto que o Enem nada mais é do que um vestibular em nível nacional.

O resultado disso é que o governo não dispõe atualmente de instrumentos/mecanismos eficazes para avaliar o ensino médio no país. O papel do Enem para esse fim foi suprimido e nada foi colocado no lugar. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) poderia ser uma resposta a essa lacuna, mas ele é amplo demais para obtermos um retrato especificamente sobre o ensino médio.

É evidente que o clássico vestibular, sozinho, não era o instrumento adequado para o acesso à universidade. Mas utilizar o Enem para isso configura outro erro, desviando o propósito de um instrumento criado para algo tão vital quanto entrar para o ensino superior: avaliar o ensino médio para corrigir suas falhas e permitir que o aluno que ingresse na universidade esteja mais bem preparado.

domingo, 29 de agosto de 2010

Meu quintal é minha rua


Nos felizes dez anos da minha vida que passei no bairro Palmeiras, região oeste da minha querida BH, curti ao máximo o fato de minha casa ter um quintal, e bem grande! E de todas as alegrias que o quintal mais me proporcionava, o canto dos pássaros era sem dúvida a do topo da lista.

Como um desafiador da madrugada, tive o privilégio de observar o amanhecer do dia por diversas vezes. E parecia que os instrumentos, ou seja, os pássaros, seguiam uma ordem previamente estabelecida e perfeitamente ensaiada. Primeiro, as garrinchas e os bem-te-vis. A eles, somavam-se os pardais com seu pio, dependendo da época o sabiá, e, por volta das 7h, um bando de maritacas aparecia voando e fazendo uma grande festa. Aquilo tudo era música aos meus ouvidos, tanto quanto a Nona de Beethoven ou um belo tema de Miles Davis. Eu costumava dizer que eu tinha inúmeros passarinhos em casa, mas todos soltos, que iam e vinham quando tinham vontade, exatamente como tem que ser.

Quando me mudei para Brasília, em novembro do ano passado, fiquei pensando nas perdas que teria. Não é fácil mudar de casa para apartamento, sobretudo apartamentos pequenos. Mas uma das coisas que me preocupava realmente era se eu teria a presença dos pássaros tão perto de mim. Achava que não. Para minha alegria, eu estava errado.

Brasília é uma cidade que tem como característica marcante a disponibilidade de áreas verdes. Além do famoso Parque da Cidade, imortalizado na canção Eduardo e Mônica, de Renato Russo, as quadras residenciais do Plano Piloto possuem muitos espaços arborizados. E onde existem árvores, lá estão os pássaros para fazer sua festa sobre os galhos. As quadras numeradas com a centena 700 (para entender como funciona a numeração das quadras é preciso um artigo a parte) são constituídas por casas geminadas, com espaços bastante amplos na frente, sem muros em grande parte delas. Nesses quintais de frente, também há árvores e muitos pássaros.

Perto do prédio onde moro, o joão-de-barro é o primeiro a dar o tom da orquestra. A ele, segue-se o bem-te-vi e os pardais, mais uma turma de outras aves cujo som não conheço bem.

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As fotos deste post são de anus, aves que geralmente andam em bandos e são excelentes caçadoras de insetos. Quando estão se alimentando, não fazem muito barulho, mas seu som de alerta é bem característico. Essas aves também aparecem muito por aqui.

Fico muito feliz pelo fato de poder continuar a desfrutar da companhia dos pássaros. Se não os posso ter mais no quintal da minha casa, então que a rua seja meu quintal! Em Brasília, essa é uma grande verdade. Os espaços de convivência são muitos e a rua, o parque, os jardins, tudo acaba se transformando num grande quintal para todos nós. Espero que saibamos cuidar dele.

sábado, 21 de agosto de 2010

Quem é o vencedor?


Assistir à derrota de um campeão não é algo bom, sobretudo quando se sabe que o atleta em questão é um dos maiores motivos de orgulho para o Brasil nos últimos tempos. Nesta noite de sábado, César Cielo (foto 1) ficou com a medalha de prata na final A dos 50 m nado livre, no Pan-Pacífico de natação, que está sendo disputado na Califórnia, EUA. E, como é seu costume, ele não ficou satisfeito com outro resultado que não fosse a vitória.

A frustração por não ficar em primeiro lugar em uma competição, a cobrança de si próprio por um melhor rendimento, o inconformismo diante de um resultado que, para o torcedor, não parece ruim, mas para o atleta é sim uma derrota, tudo isso pode parecer uma certa presunção ou arrogância de quem não sabe perder. Mas o fato é que o sentimento contrário, ou seja, a sensação de dever cumprido ao se conquistar um segundo ou um terceiro lugar, a celebração de um vice-campeonato como se um título fosse, são elementos que contribuem fortemente para o mau desempenho de alguns atletas brasileiros em competições de alta performance. O que faz de César Cielo um campeão não é só seu grande talento e capacidade de rendimento como atleta, mas o fato de reconhecer em si mesmo um campeão e não aceitar a derrota como um resultado normal. Pode ser normal se o atleta se preparou para a prata, o bronze, ou simplesmente pela classificação para a final. Mas, para quem se prepara para o ouro, a prata não pode ser considerada normal.

Então, o Montanha está dizendo que só é vencedor quem ganha a medalha de ouro? Certamente não. Estou dizendo que só é vencedor quem atinge a sua meta. Um exemplo é o bronze da Fabíola Molina conquistado na noite de quinta-feira, no mesmo torneio, nos 50 m costas. Para uma atleta de 35 anos, competindo com garotas até com menos da metade de sua idade, o terceiro lugar é uma vitória. Afinal, ela tem plena consciência de que a idade é um fator que diminui seu rendimento frente às concorrentes e que ela muito provavelmente está fora da briga pelo ouro. Assim, sua meta é buscar o melhor resultado possível, de preferência uma medalha, diante da desvantagem que tem. E Fabíola Molina conseguiu!

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Creio que o melhor exemplo que posso dar em contraposição a César Cielo é o de Felipe Massa (foto 2). A polêmica sobre a ultrapassagem amigável de Fernando Alonso, no dia 25 de julho último, assim como ocorreu com Rubens Barrichello e Schumacher em 2002, mostra um tipo de esportista infelizmente cada vez mais comum: que coloca o dinheiro acima de sua honra como atleta e de sua ética desportiva, que não têm o devido apreço pela vitória ou as duas coisas juntas. Nunca torci por Felipe Massa por não o considerar um grande piloto. Mas o episódio com Alonso mostrou o comodismo de alguém que não quer arriscar a conta bancária em nome de um reconhecimento por agir de maneira ética. Pior: a punição de apenas Us$100 mil aplicada à Ferrari mostra que a Federação Internacional de Automobilismo é conivente com essa prática.

A postura de vítima adotada por Massa e por parte da imprensa brasileira não escondem o fato de que, tanto quanto Alonso e a Ferrari, o piloto brasileiro foi responsável pelo que aconteceu no Grande Prêmio da Alemanha de F-1. O que a FIA deveria ter feito, a meu ver, seria retirar os pontos da Ferrari no mundial de construtores e igualmente dos dois pilotos na competição, promovendo cada um dos demais pilotos em duas posições na linha de chegada. Assim, o terceiro colocado seria declarado vencedor, o quarto ficaria em segundo e assim por diante.

A questão é, portanto, muito mais complexa do que ser primeiro ou segundo lugar. Não pode ser considerado vencedor o atleta que, tendo as condições físicas e técnicas para estar em primeiro lugar, não tem a vitória como único e exclusivo alvo. Não pode ser perdedor o atleta que não chega em primeiro, mas sabe que, por uma limitação qualquer, não poderia ir além e chegou ao melhor resultado possível. Massa é um piloto jovem, tem um ótimo carro e experiência considerável. Tem portanto os requisitos para ser vencedor, mas não é. César Cielo também tem os requisitos para ser campeão e, quando isso não acontece, ele não se conforma. E é por isso que ele é um vencedor.

A gente fica cansado de tanto escutar o hino dos Estados Unidos nas competições internacionais e se esquece de perguntar o porquê. É porque o espírito esportivo do norte-americano está baseado no pressuposto de que é preciso vencer, não apenas competir, como foi o caso da ginasta, cujo nome não recordo, que terminou sua série e saiu carregada, chorando com dores insuportáveis, mas conquistou o ouro para o seu país.

Alguém já disse que o segundo colocado é só o primeiro entre os perdedores. É claro que o pensamento é radical e intolerante demais e o torcedor não deve adotar essa idéia como filosofia. Mas, para o atleta, um pouco de radicalismo, de obsessão pela vitória, não faz mal nenhum. E se não nos conformássemos tanto com resultados medianos, talvez nossa performance em grandes competições, como os Jogos Olímpicos, seria melhor.