Estava decidido a não escrever sobre a vinda da blogueira cubana Yoani Sánchez ao Brasil. Não por achar que ela não mereça. Ao contrário, penso que toda pessoa que usa a sua capacidade intelectual para se insurgir contra um regime ditatorial (e para mim não interessa se uma ditadura é de direita ou de esquerda, porque todas são ditaduras), merece ser elogiada e portanto merece um artigo em um blog, mesmo simples e desconhecido como é o Mexidão.
O que me tinha inclinado a não escrever, no entanto, era o fato de que a notícia da passagem de Yoani Sánchez pelo Brasil seria tão divulgada e comentada, que ficaria difícil acrescentar algo novo ao que já estava sendo dito.
Contudo, quando eu estava decidido a não escrever, pensava que a vinda de Yoani ao Brasil traria polêmica, levantaria acaloradas discussões sobre o regime cubano, provocaria embates memoráveis entre políticos ligados aos partidos de esquerda, ou que assim se definem, e os centristas ou direitistas. Pensei que os ânimos se exaltariam, que palavras de ordem fossem ditas, que até alguns insultos típicos da política seriam ditos no plenário da Câmara dos Deputados ou na imprensa. Tudo isso seria tolerável dentro do processo democrático e, mesmo que tudo isso ocorresse, eu não viria a este blog comentar a visita de Yoani ao Brasil.
Mas o que me fez mudar de ideia e comentar o caso foi a transformação da liberdade de manifestação em tentativa de intimidação, da democracia em baixaria e desrespeito. Por mais absurdo e paradoxal que possa parecer alguém se manifestar democraticamente em favor de uma ditadura, vale lembrar que esse é um direito constitucional. Defender governos, sejam eles democráticos, ditatoriais, monárquicos, teocráticos, é legítimo e também legal. Portanto as manifestações contra Yoani e a favor dos irmãos Castro, as palavras de ordem taxando-a como traidora, embora ela nunca tivesse mudado de lado e sempre tenha sido abertamente contrária ao regime, nada mais são do que o exercício de uma garantia dada pela nossa ordem jurídica e pela nossa democracia.
No entanto, essas manifestações só são legítimas quando existe a possibilidade do contraditório. Quando impediram a realização de eventos como palestras e noites de autógrafos com Yoani Sánchez, os tais militantes pró Fidel mostraram exatamente porque tanto apreciam o regime político instalado em Cuba desde 1959, aliás, uma espécie de dinastia Castro. Eles rezam pela mesma cartilha dos irmãos Fidel e Raul: impor suas ideias através da intimidação dos que pensam de modo diverso. Na ótica dessas pessoas, se eu não confio nas minhas ideias o bastante para convencer os demais de que estou certo, o melhor é silenciar as ideias contrárias às minhas. Em Cuba, isso muitas vezes significou eliminar os próprios autores dessas ideias que se opunham ao regime. No Brasil, as manifestações, que a princípio seriam apenas fruto da nossa jovem democracia, foram levadas ao extremo de impedir Yoani Sánchez de falar em vários eventos para os quais foi convidada.
Pergunto então: do que essa militância tem medo? Não seria mais democrático ouvir o que Yoani tem a dizer e depois, com os melhores argumentos, derrubar uma a uma de suas “mentiras” sobre o “paraíso” que é a vida da população cubana? Seria mais democrático de fato, mas seria mais perigoso. Afinal, se os argumentos para contrapor as ideias da blogueira não fossem bons o suficiente, a população brasileira poderia ser convencida de que Yoani está dizendo a verdade e que suas convicções são oriundas de uma vida de restrições, especialmente na falta de liberdade para se expressar. A democracia é muito perigosa para os que não querem ou não sabem debater suas ideias, por isso é sempre mais efetivo silenciar os oponentes, seja por que estratégia for.
Volto a dizer: sou contra todas as ditaduras. Mas parece que não é essa a posição de muitos dos militantes ditos de esquerda no Brasil. Na verdade, muitos dos que lutaram contra a tirania dos militares no poder entre 1964 e 1985, não lutaram contra a instituição da ditadura. Eles lutaram contra aquela ditadura específica. No entanto, quando a ditadura é comandada pela sua corrente ideológica, eles não se colocam contra. O apego dessas pessoas à democracia é tão frágil quanto uma tira de pano tentando segurar um avião. Eles estão sempre em busca de quem lhes diga “amém”. E quando aparece alguém como Yoani Sánchez e se recusa a participar da brincadeira com essas regras, esses militantes fazem birra e param de brincar. E ainda chamam de traidora aquela que discorda deles. Felizmente para ela e para nós, Yoani não está sozinha. E aos militantes que tentaram impedi-la de falar, sugiro que mandem esculpir uma estátua em homenagem à democracia e se ajoelhem diante dela. Afinal, não fosse essa que eles tanto insistem em chamar de democracia burguesa, eles não poderiam ter sequer se manifestado e muito menos da forma desrespeitosa como o fizeram. A boa nova é que essas pessoas não representam o pensamento do povo brasileiro. Um brinde a isso!
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terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
terça-feira, 11 de setembro de 2012
"If you see something, say something"

Os ataques de 11 de setembro de 2001 deixaram como legado mais do que as quase três mil vidas perdidas, as mudanças nos procedimentos de segurança nos aeroportos ou em locais de grande aglomeração de pessoas. Deixaram uma certa cultura do medo. E talvez fosse esse mesmo o lobjetivo principal da Operação Aviões, arquitetada pela Al Qaeda: fazer com que o povo americano não mais tivesse pleno sossego para levar a sua vida cotidiana.
É evidente que, 11 anos depois dos atentados, as pessoas aprenderam a conciliar essa vida de quem precisa olhar sempre para os lados para saber se nenhuma mochila suspeita foi abandonada na estação do metrô ou dentro dos trens, com as suas necessidades de ir e vir, comprar, se divertir etc. Afinal, a vida precisa prosseguir e as pessoas tentam fazer disso a coisa mais natural do mundo. Mas é qualquer boato sobre a possibilidade de novos atentados aparecer e a tensão volta a reinar nos ares de Nova York.
No ano passado, passei férias na Grande Maçã exatamente nas vésperas dos 10 anos dos atentados contra o World Trade Center. Foram as melhores férias da minha vida. Fiz compras, fui a dois espetáculos na Broadway, visitei museus, e como era fim de verão, fiz tudo isso em roupas bem confortáveis, passeando de bermuda, camiseta e sandálias em plena Quinta Avenida. Mas é inevitável viver também esse clima de ameaça que sempre paira quando algo diferente acontece; algo que, para nós, parece corriqueiro, mas que para quem vive cercado por lembranças tão marcantes, se torna um pesadelo.
A percepção de que a vida não é tão normal assim começa ao assistirmos Tv. A prefeitura de Nova York colocou no ar uma série de campanhas alertando a população para que denuncie objetos e atitudes suspeitas nos locais de maior circulação de pessoas. Em um dos filmes, uma mochila é “casualmente” esquecida no metrô. Em seguida, a voz do locutor, em tom bastante sério, diz: “Não pense que isso foi esquecido ali por acaso: se você vir alguma coisa, diga alguma coisa”. Passeando pelas ruas, tudo parece normal, até que um policial te interrompa o caminho e peça para você desviar para a rua paralela, porque aquele quarteirão está fechado. O motivo: uma mochila abandonada na porta de um prédio. Esse fato aconteceu comigo quando voltava do restaurante onde costumava tomar café da manhã. Tive que dar uma volta para sair na portaria do hotel. Vale ressaltar que, apesar da dureza imposta pela gravidade aparente do fato, os policiais são bastante solícitos, barrando o caminho, mas sempre indicando uma direção alternativa para que o turista não se perca.
Os objetos abandonados “por acaso” são de fato a maior preocupação dos novaiorquinos. Embora a possibilidade de ataques suicidas sempre exista, é muito mais difícil preparar agentes para esse tipo de missão. Por isso, os ataques suicidas são reservados a missões maiores e os pequenos atentados com objetos corriqueiros são sempre utilizados pelos terroristas, embora, por outro lado, seja mais fácil detectar e impedir esse tipo de ação. Fato é que todo objeto sem dono, esteja onde estiver, é imediatamente removido. Numa ocasião, eu e minha esposa estávamos sentados no saguão do hotel usando o serviço de internet wi-fi. Havia uma mala ao lado do sofá em que estávamos e um funcionário do hotel logo perguntou se era nossa. Como não era, assim como não era de nenhum dos outros hóspedes que estavam nos sofás do saguão, a mala foi imediatamente recolhida.
Voltei para o Brasil dois dias antes do aniversário de 10 anos dos atentados de 2001. E os noticiários sobre um possível ataque por causa dessa data eram cada dia mais frequentes. O temor era de que houvesse um ataque com carro bomba, o que em Manhattan, infelizmente, é muito fácil de se fazer, sobretudo se for um ataque suicida. Mas o 11 de setembro de 2011 passou sem que nada de extraordinário ocorresse. No entanto, ataques terroristas não costumam acontecer com aviso prévio, de modo que essa ameaça está sempre no cotidiano. Nesse sentido, a Al Qaeda parece ter alcançado a maior vitória de sua existência: Nova York nunca mais será a mesma. E os Estados Unidos também não.
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